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day of tears

Acordei hoje e tudo parecia mais pálido...
Eis então que leio a notícia e constato: um dos luzeiros da verdade deixa este mundo e adentra a eternidade. Com sua obra atemporal, agora Saramago vive para sempre.

da ignorância

Lembrei-me de mais um episódio ocorrido no segundo grau, esse forjador do caráter humano, responsável por histórias memoráveis e traumas para a vida inteira.
Eu e um colega escrevíamos a letra da música N.I.B., do Black Sabbath, no quadro, durante o intervalo. Eis que chega um outro colega, e em um ato pleno de ignorância e medo, dá uma olhada, provavelmente lê apenas de relance, e ao constatar a palavra 'Lucifer', apaga tudo, praguejando! Depois nos olha, e pergunta, 'mas o que é isso, meu deus'. Apenas rimos, 'é uma música, oras'.
O pavor, o horror? Apenas o não entendimento, um exemplo em pequena escala do que a ignorância é capaz.

...

"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, mas estou cheio de escravos, minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor".
-Carlos Drummond de Andrade
Esta é uma horrorosa tarde de quarta feira, e não existe música do Led Zeppelin capaz de torná-la aprazível, ou um pouquinho melhor que seja. Não que o sol esteja se escondendo, isso é quase uma bênção nos dias medonhos de verão em SP, ou que estejam chovendo inundações, como é tão comum por aqui.
Sinto pessoas ao longe, D. não responde emails, R. foi comprar queijos como stash para a região sul onde mora(para si, não para toda a região), M. e V. talvez estejam fora de alcance e o Robert Plant não escreve mais as músicas que eu esperaria ouvir neste momento.
Então, nada pode ser mesmo esperado...
"Should I fall out of love, my fire in the light?
To chase a feather in the wind
Within the glow that weaves a cloak of delight
There moves a thread that has no end" (Led Zeppelin)
Tento, de forma infrutífera, lembrar e escrever as frases que me vem no limiar do sonho. Ali, sou escritora, a diferença que desejo no mundo! Frases lindas, coesas ou não, poéticas em sua diferença, particular ou plural. Mas acordo, e tudo esqueço. Quem sabe seja eu lá no mundo das idéias, imersa em livros e manuscritos, ou datilografias ou arquivos digitais, importando não a mídia, mas a continuidade do verbo escrito.
O mundo é enrustido! - grito eu. A espontaneidade se perdeu frente a rombuda ponta da censura, que não aponta, apenas dilacera os pensamentos em vasta escala sem diferenciação. Haverá lugar ainda para os que tentam ser verdadeiros, e sofrem? Literatura e poesia, e música poderiam ser escapes, mas 'tudo é arte' e nada pode ser transportado para o 'mundo real', onde a regra é viver em caixas.

lembrar, como sempre

Penso nas lembranças como tijolos, pequenos ladrilhos.
Minha professora na segunda série, ela tinha uma bolsa de tecido da revista Elle, e lá dentro, cadernos, uma agenda, várias canetas fofas. Talvez tenha nascido daí minha tara por colecionar canetas, já que eu gostava muito dessa professora. Talvez eu ainda compre um Scort antigo só por causa dela. Ela tinha um.
O vento na sacada do nosso apartamento alugado na praia, nunca o'fazer nada'foi tão bom.
Cheiro de massa plástica dos primeiros semestres de Tridimensional.
A grama torrada do calor, quando íamos ao campus no verão ter aulas atrasadas pela greve.
Pequenas partículas de gelo caindo, no inverno de 99.
A casa da Barbie que não pude ter.
Os inúmeros desenhos que joguei no lixo.
O frio congelante, ter de dormir de meia calça por baixo do pijama.
A primeira vez que fui ao cinema. Prédio antigo, os teatros de antigamente.
O bosque no qual não pude ir, nos fundos do terreno da casa da minha tia-avó.
Os pastéis e o pão com carne fria que comíamos na casa do vô.

....
É, eu sei, falar sobre hotdogs não é lá muito inspirador, não é;
Foda-se.
Pense na chuva que não pára um-minuto-sequer de cair, ao inundar as cidades sujas, e assassinar as pessoas incautas. No mundo que não pára pra quem quer descer. No final de ano que parece se arrastar propositalmente conforme se aproxima 31 de dezembro, apenas para perpetuar o sofrimento.
Lembro de notas perdidas nos anos passados, poesias pensadas em uma calçada qualquer, à luz da lua; o violino que nunca fui capaz de afinar. Um dia chuvoso numa estrada esquecida, letras de músicas decoradas apenas para 'se saber cantar'.
Há alguns dias, vi um caracol na calçada, fato até então inédito nesta cidade. Antigamente os caracóis eram comuns, devorando couves, deixando traços brilhantes pelas paredes alheias. Como os mariscos e conchas, outrora tão abundantes na praia de nossa infância. Hoje, desapareceram. O legado de todos será mesmo a esterilidade? Não falo da prole, mas o legado de idéias, a metáfora que hoje ninguém parece capaz de entender.

hot-dog!

Cheiro de cachorro quente entrando pela janela! Quem é que anda cozinhando as cinco da tarde eu não sei, mas a larica bateu forte. Oh, materialização instantânea, por que não te inventaram?

no subject

Ah, chuva, forte e incessante; atravessou todas as estações deste ano, alagou inúmeras vezes a cidade, estragou inúmeros dias que poderiam ser bonitos.
Mas hoje a chuva vem e tudo bem, não tenho esperanças sequer de ir a padaria na outra quadra. É recém segunda, e eu sinto como se um mês inteiro tivesse passado.

time ain't no reason

Quando outubro chega, parece que não há mais nada a se fazer além de esperar o ano acabar.
Eu mesma tenho desejado que o dia possua mais horas, porque as já existentes não são suficientes para se trabalhar E viver; tenho bebido (muito) mais café do que o habitual e desejo (fortemente) que os finais de semana nunca mais acabem, para que eu não tenha de encarar a segunda feira - outra vez, e outra vez...